Para esta postagem, usarei como referência o livro A teoria da
democracia revisitada, do cientista político italiano Giovanni Sartori.
A análise de um conceito como a democracia é uma
tarefa razoavelmente complicada. O termo é capaz de trazer um sem-fim de
interpretações, muitas delas conflitantes entre si. Apesar de possuir
opositores por certo tempo, a democracia passou a ser um título honorífico para
as instituições sociais e políticas. No cenário com que nos deparamos, nenhum
defensor de qualquer regime deseja que este seja considerado antidemocrático. A
fluidez do conceito é estimulada, uma vez que uma definição permitiria
diferenciar mais facilmente o que é e
o que não é democrático. A
resistência apresentada para uma formulação unânime do que afinal é a
democracia acaba por contribuir para a fragilização da mesma. Ora, se a
democracia é algo tão indefinido, pode ela ser qualquer coisa? Afinal, o que
vem a ser a democracia?
A raiz da questão reside no seguinte problema: a
democracia tanto é um ideal (ou melhor, vários ideais, que por vezes são
incongruentes entre si) como uma forma de governo. Ao mesmo tempo em que a
palavra descreve uma realidade empírica – os governos democráticos – ela
prescreve como o regime ideal deve ser. Tomando a palavra de
forma literal, temos o significado “poder do povo”. A palavra demokratía,
cunhada pelos gregos na antiguidade, se referia a um conceito político.
Tratava-se, obviamente, de uma democracia política. No entanto, hoje
temos uma ideia expandida de democracia, que engloba os âmbitos do econômico e
do social. Longe de serem negativos, no entanto, esses sentidos são em grande
parte responsáveis pela situação de democracia confusa.
Uma democracia social (não confundir com a Social
Democracia enquanto designação partidária) abrange tanto um ethos igualitário, um espírito de uma
cultura que requer que seus membros reconheçam-se como seres socialmente
iguais, como também pode se referir a uma sociedade formada por diversos grupos
em que os grupos se organizam de forma democrática. No entanto, a democracia
social não deve ser confundida com uma “democracia socialista”. As
características principais da democracia social são, além de sua existência no
plano social, sua espontaneidade e seu caráter endógeno. A natureza
extrapolítica da democracia social, que se organiza de baixo para cima, é completamente
distinta de um programa imposto por um Estado socialista, organizado de cima
para baixo.
A noção de democracia econômica é relativamente
mais problemática. Trata-se de um conceito amplo e ambíguo. Enquanto a
democracia política estaria restrita basicamente à igualdade política e
jurídica e a democracia social teria como ênfase a igualdade de status, a democracia econômica por sua
vez seria ou refletiria uma preocupação com a equalização da riqueza. Portanto,
a democracia econômica teria como meta política a redistribuição de riqueza e a
equalização das oportunidades econômicas. Dessa forma, a democracia econômica
pode ser tomada como um complemento ou uma extensão da democracia política. Na
concepção marxista, no entanto, a democracia econômica não exige uma democracia
política, pelo contrário. A democracia política não teria sentido,
representando uma superestrutura da opressão burguesa e capitalista. Uma vez
que se toma como substância verdadeira da realidade a sua substância econômica,
ao eliminar-se o capitalismo, o elemento político e de governo desapareceria. O
caminho para o comunismo teria como destino um sistema econômico, e não um
sistema político, uma vez que não haveria necessidade de governo. A democracia
econômica reduz-se a uma economia comunista. Temos então dois extremos – um em
que a democracia econômica refere-se a um programa de ação determinado pela
democracia política e outro em que a democracia elimina e substitui a
democracia política (transformando-se em uma noção que resiste a uma definição
mais precisa).
A democracia política consiste basicamente numa macrodemocracia de larga escala.
Trata-se da democracia soberana
supra-ordenada, enquanto que as demais são, inevitavelmente, democracias
subordinadas. Se a sociedade política, a entidade supra-ordenada, não for uma
democracia, é pouco provável que as demais, subordinadas, a sejam. Não se pode
negar a importância de uma democracia social como base de uma sociedade
política democrática, porém, a democracia política é condição indispensável
para qualquer meta democrática. Se o sistema principal não é democrático, então
os outros perdem seu valor. Por essa razão, ao falarmos “democracia” sem
adjetivá-la, estamos falando de democracia política, portanto, democracia é um
conceito político em primeiro lugar. A democracia enquanto método ou
procedimento precede qualquer outra realização que possamos esperar da
democracia. Os produtos não-políticos da democracia podem realmente representar
seu elemento mais importante, mas não podem ser obtidos sem esta.
Voltamos então à questão: O que é a democracia?
Como vimos, o significado da palavra é “governo do povo”. Mas afinal, o que é o
demos, o povo? Mesmo na Grécia antiga
o termo já era ambíguo. No século V a.C., demos
significava a comunidade ateniense (ou similar) reunida em assembléia.
Entretanto, este demos podia ser
assimilado ao organismo inteiro ou aos pollói,
os muitos; ou aos pleíones, a
maioria; ou aos óchlos, o populacho
(no sentido pejorativo). Os problemas continuam ao traduzir o termo para o populus latino, em que o conceito de
povo só pode ser entendido no contexto do constitucionalismo romano. Não
podemos descartá-lo, porém, já que o idioma da idade média era o latim. Durante
cinco séculos, o conceito foi então o de populus,
o que significa que a doutrina da “soberania popular” incorporada à nossa
democracia não é grega e não será bem compreendida se a derivarmos diretamente
de demos. Temos então por fim, um
problema referente aos idiomas contemporâneos. A palavra povo e seus equivalentes
em italiano, francês e alemão transmitem uma idéia de entidade singular,
enquanto que o people inglês exige um
plural. Enquanto povo, populo, peuple e Volk dão uma idéia de todo, um “todo-mundo” completo e indivisível,
em inglês, dizer democracia significa dizer “policracia”, um conjunto separável
constituído por várias partes. Não se admira que interpretações de democracia
como unanimidade geralmente venham de intelectuais pensando em alemão, francês
ou italiano.
Podemos tomar “povo” como literalmente todo o mundo? Não precisamos nos deter
muito na primeira questão. Primeiramente, porque segundo ela, a democracia
nunca existiu. Em Atenas estavam excluídas as mulheres, além dos escravos, que
eram grande parte da população da cidade. Hoje se excluem os menores,
deficientes mentais, criminosos cumprindo pena e viajantes. Até hoje, jamais se
conseguiu inclusão total. A abrangência do “povo” sempre teve seus limites. Se
o povo não pode ser todo o mundo sem exceção, os muitos tampouco podem ser
usados como critério. O povo como grande quantidade de pessoas não pode ser
determinado. Afinal, quantos são suficientes para constituir um povo? Alem
disso, muitos em relação a que total? Estas interpretações demonstram mais
problemas do que soluções, devendo ser abandonadas por seu uso limitado.
A alternativa poderia ser povo como representando a
classe inferior, mais especificamente a classe pobre e/ou trabalhadora. No
entanto, apesar de na época dos gregos e em certas realidades atuais os pobres
representarem a maioria, à medida que uma sociedade se moderniza, uma classe
média de tamanho razoável aparece entre os ricos e pobres. Em países
pós-industriais, os “pobres famintos” e o proletariado são na verdade minorias.
Além disso, povo enquanto maioria permite que as exclusões sejam transitórias e
flexíveis, uma vez que minha exclusão hoje não necessariamente significa que
não poderei ser incluso amanhã. No entanto, ao definir-se povo como a classe
inferior, quem não pertencer a esta, estará excluído de forma permanente.
A dimensão do povo enquanto unidade que reúne a
todos de forma indivisível também se mostra pouco satisfatória, uma vez que
partindo dela teremos ou uma noção de democracia impraticável ou a uma noção
que justifica qualquer regime político. As noções de povo como totalidade
inseparável permitem que se deduza que o indivíduo nada representa. A ideia de
“todos como uma só unidade” está mais próxima das justificativas dos regimes
totalitários do que da democracia.
Restam então os conceitos de maioria absoluta ou
limitada. O primeiro significa aqui que só a maioria conta – o maior número de
qualquer população tem o direito ilimitado de decidir por todos. O segundo, por
sua vez, afirma que nenhum direito de nenhuma maioria pode ser ilimitado. A
primeira vista, pode parecer óbvio optar-se pela primeira concepção. Porém,
estabelecer a democracia como vontade ilimitada da maioria, termina por servir
como um controle da maioria sobre a minoria. O primeiro vencedor de uma disputa
democrática que adquire poder ilimitado pode estabelecer-se como vencedor
permanente. O futuro de uma democracia que deseje estabelecer-se como tal está
na possibilidade de que maiorias possam se tornar minorias e vice-versa. Temos
assim, que o princípio democrático funcional da democracia é o da maioria
limitado pela minoria.
O problema se torna ainda mais complexo ao
chegarmos à ligação entre o conceito de povo e o de poder. O poder é, em última
instância, o exercício do poder. Vivemos numa sociedade de massas, não mais na Polis
grega, onde um limitado numero de indivíduos participavam das decisões em
conjunto, o que nos traz o problema da representação, que não pode de forma
alguma ser dissociado da questão da eleição. Se o poder é exercido sobre
alguém, então quem é objeto do exercício do poder do povo? Chegamos à conclusão
de que a democracia é o governo do povo sobre o povo. A representação e a
eleição são as ferramentas da democracia e ao mesmo tempo, seu ponto fraco. Ao
deixar seu poder na mão dos representantes, o povo corre o risco de perdê-lo.
As eleições deixam de ser livres e a representação deixa de ser genuínas. As
salvaguardas contra isso, no entanto, não estão na democracia literal. Uma
teoria democrática que contenha apenas a noção de poder do povo só é válida
quando combate um regime autocrático. Ao derrotá-lo, o poder transferido ao
povo é um poder titular, o exercício deste é outra questão. Compreendendo isto
podemos buscar meios e formas de maximizar o poder real do povo. Dentro da
democracia, não avançamos muito ao tomar o povo como uma entidade mística e
sagrada.
A questão da minoria também tem um papel
importantíssimo. Historicamente, maiorias perseguiram minorias – e perseguem
ainda hoje. Minorias étnicas são perseguidas e até exterminadas em certas
regiões do mundo em nome da democracia. Mesmo aquele que vota com a maioria
está necessariamente sujeito à sua vontade após a votação e um governante por
sua vez, deve atender não só aqueles que o elegeram. O conceito de democracia
como maioria mais a(s) minoria(s) corresponde de forma mais satisfatória com o
conceito de povo, uma vez que abarca todo o seu conjunto. A democracia é
portanto, o poder da maioria limitado pelos direitos da minoria. Manter a
democracia desta forma permite que esta seja um processo contínuo em que se
assegura a todos os cidadãos (maioria
mais minoria) os direitos necessários aos procedimentos democráticos.
Referência bibliográfica: SARTORI, Giovanni. A Teoria da Democracia Revisitada. São Paulo: Ática, 1994 vol. 1.

1 comentários:
qual o significado dessa imagem?
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