A ciência, como diria qualquer livro de escola, está presente em diversos lugares. Faça uma viagem por uma estrada e perceba o quase sem-fim de elementos com os quais entramos em contato: a vegetação (ou falta dela em alguns casos) aparentemente estática, mas carregando em si todo o dinamismo e sendo um dos principais reguladores do sistema ecológico; observe os carros, passando provavelmente em alta velocidade, à medida que o combustível em seus tanques é queimado para mover o veículo; observe as casas, as cidades, onde a vida humana se desenvolve em toda sua complexidade particular, lembrando que nem sempre elas estiveram lá, e nem sempre estarão ou irão se comportar da mesma forma; olhe para o céu, onde ao invés de um firmamento encerrando o planeta, há na realidade uma película formada por gases e que basicamente nos protege de elementos vindos do espaço, olhe para o sol, que apesar de tão grandioso para nós, é mais uma estrela entre milhares, e na essência, é formado pelo mesmo tipo de partículas que compõem seu corpo, apenas arranjadas de forma diferente, e um dia, em tempos que a mente humana tem dificuldade – mas não impossibilidade – de mensurar, estiveram juntas, num espaço infinitamente pequeno, quente e denso. Esse é o mundo para a ciência. Um mundo em que cada coisa detém sua particularidade, nenhuma é necessariamente superior a outra.
Aprendemos desde crianças que o que diferencia o ser humano dos outros animais é ser um ser racional, um ser que cria. Relativismos à parte, já que definir se os outros animais são ou não são racionais é uma tarefa complexa, o fato é que nós somos racionais, sim, ainda que alguns insistam em reduzir a riqueza do potencial humano a meras reações químicas, instintivas ou neurológicas. O problema é que a racionalidade e o potencial humano por vezes, principalmente como observado nos dois séculos antecedentes ao nosso, pode se tornar arrogante. Pode achar que a objetividade e a racionalidade pura darão conta de tudo. E não é assim. A riqueza do ser humano está tanto na sua racionalidade quanto no que lhe é subjetivo, suas emoções, suas opiniões. A razão sem a emoção, o conhecimento sem o amor pelo conhecimento, pela arte e pela vida tal como ela é, é vazio. A arrogância da ciência moderna constrangeu o próprio desenvolvimento da mesma. Ao afirmar poder responder tudo e solucionar todos os problemas, a ciência criou expectativas às quais não poderia responder de imediato (ou que sequer pudesse ou devesse responder).
A questão está em entender que a ciência não está aí para dar respostas definitivas. O conhecimento científico é algo que se desenvolve a cada dia, e não pode sujeitar-se à ânsia desesperada das pessoas por respostas confortantes. O processo de produção de conhecimento científico não é um processo rápido, nem deve se firmar na velocidade como sua principal virtude. Claro, se for possível fazer as coisas de uma forma ágil, que assim seja, mas o conhecimento científico é basicamente fundamentado na formulação de questões, em seguida, na busca de respostas – aí é que está a armadilha. As respostas encontradas pelos cientistas não são verdades últimas. São argumentos, teorias, observações que buscam uma explicação plausível, baseada em argumentos sólidos, mas que de forma alguma são incontestáveis, mas se for para serem contestados, que o sejam de uma forma eficaz e com argumentos que, não só sejam sólidos, mas também demonstrem a fragilidade do argumento anterior. Exemplo: você pode não concordar que a Terra tenha um núcleo de ferro que gira em alta velocidade propiciando não só o movimento de rotação como a existência do campo eletromagnético que nos protege das descargas de massa solar e da radiação espacial. Sem problemas, você pode acreditar que a Terra tenha um núcleo feito de paçoca, por que não? Mas esteja preparado, porque a resposta da ciência é simples: “Demonstre”. Se você tiver um argumento consistente, baseado em um corpo teórico coerente e em fenômenos observáveis, uma hora ou outra sua proposta será posta em questão. Pode ser considerada a piada do momento, mas e daí? Quantas idéias hoje comprovadas não foram consideradas inconsistentes em um primeiro momento?
Aí está outro motivo que torna a ciência tão rica. Ela é dinâmica. A ciência não tem medo de questionar a si mesma. Claro, uma relutância aqui, outra ali. Mas quem pode atirar pedras? Quem gosta de admitir que comete erros? Dar-se ao trabalho de admitir que erra já é um grande passo.
Então, voltamos à questão da queda de popularidade da ciência. Isso se deve a uma infinidade de motivos, tentarei abordar alguns que eu acredito serem os principais, em minha opinião, de uma forma um pouco superficial. Como eu já disse, houve a questão da arrogância da própria ciência. A ciência moderna em certos momentos se propôs (e certas vezes, ainda hoje) a resolver todos os problemas da humanidade. A ciência não é milagreira, por mais que a mídia adore falar em “milagres da ciência”. A ciência se propõe a compreender processos a partir do que tem a seu alcance, e certas coisas simplesmente não podem ser resolvidas, nem tampouco devem, pois não consistem em problemas reais. Exemplo: a questão dos desastres naturais como o terremoto que atingiu o Japão em março deste ano e rapidamente gerou comoção internacional e atiçou os “Profetas do Apocalipse” por todo o mundo. É lamentável a perda de vidas, mas o fato é que enquanto a Terra for um planeta geologicamente ativo, haverá vida. Se o cenário com desastres é um cenário em que mortes trágicas ocorrem, um cenário sem eles é o da total ausência de vida. É graças ao que chamam de “desastres” (eu particularmente prefiro chamar de “fenômenos”) naturais que a vida na Terra surgiu, se desenvolveu à imensa diversidade de hoje e se mantém.
Passo então para a problemática da mídia. Jornais, revistas e programas de TV precisam atrair as pessoas para si. E a forma mais fácil é como anunciadora de tragédias. É comum a mídia chamar cientistas para tornar seu discurso convincente. Seja em caso de tragédias, seja para falar de uma descoberta em qualquer área, seja para analisar o cenário político. A mídia exige respostas imediatas para coisas as quais a ciência não pode responder com propriedade, pois seu método é o de entender os processos, e não os dados em si. Previsões e análises precipitadas sempre estarão em séria desvantagem perante a uma compreensão de como todos os elementos observáveis interagem.
Por fim, chegamos à limitação do sistema educacional. As nossas escolas não contribuem para incentivar o debate científico, o tipo de coisa que eu acredito ser da maior crueldade com a mente de um jovem. É no debate, no confronto de idéias, na batalha de argumentos que o conhecimento se mostra em sua forma mais fascinante, quase que como uma entidade viva em si. Mas o que ocorre é que temos um ensino mecânico, onde o conhecimento não passa de um compêndio de informações (muitas vezes incompletas ou até mesmo errôneas e ultrapassadas) a serem utilizadas de forma arbitrária em provas e testes. A produção de conhecimento ainda resiste confinada nas Universidades onde, ainda que com certas limitações, muita coisa é produzida e de qualidade. O problema é que esse conhecimento raramente ultrapassa as barreiras do Ensino Superior, e muitas vezes, ainda que levado a público, comumente é distorcido por parte da já falada mídia imediatista.
Não quero aqui dizer que as pessoas são incapazes ou que a razão e a ciência devem ser as prioridades na vida das pessoas. Acredito em primeiro lugar que todas as pessoas têm a mesma capacidade. Não creio em gênios. Gênios seriam criaturas mágicas capazes de criar coisas do nada. Nenhum cientista cria do nada. Toda idéia se fundamenta em outra, nem que seja para discordar da mesma. Sim, tanto você quanto um Ph.D possuem o mesmo potencial, se este será desenvolvido ou não, é outra questão.
A razão não deve ser necessariamente o motor das nossas vidas. Francamente, uma vida extremamente racional seria uma chatice (e impossível). O que torna a ciência fascinante é ter amor (ou seja, sentimento) pelo conhecimento. A razão sem subjetividade é vazia. Chega ao ponto de ser (ironicamente) irracional. Não quero pessoas com overdose de razão, mas umas gotinhas não fazem mal a ninguém, por mais homeopáticas que sejam. E vacinam contra a ignorância.
0 comentários:
Postar um comentário